segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Chegou o Outono. Mais um. Desta vez os deuses foram clementes e em quase todo o país o equinócio fez-se sob o Sol escaldante de um Verão que entrou atrasado, mas teima em ficar. As folhas continuam no seu lugar e nem a brisa que ao final da tarde se faz sentir as consegue fazer cair. Irão fazê-lo mais tarde quando o doce e envolvente calor de Outubro deixar de as beijar. Aí a gravidade não perdoará e em todas as escolas básicas serão o tema preferido – senão obrigatório – dos professores e pequenada.

O fenómeno perene das folhas é muito similar ao das tartarugas, perdoem-me a comparação. Milhões de tartarugas partem os ovos no momento em que se sentem capazes de enfrentar um mundo que não conhecem, mas para o qual a natureza lhes deu as condições mínimas de sobrevivência, mas não as preparou para os predadores que pacientemente as esperam ao longo das praias do planeta. Nascem com o sentido do mar. Lutarão até ao limite das suas forças para o atingir e já em plena água ainda terão de fazer um último esforço para que não sejam uma pequena parte do manjar de um qualquer peixarrão que lhes saia ao caminho. Dos muitos milhões que se fazem ao mar, alguns milhares irão sobreviver. O suficiente para a manutenção da espécie neste momento, mas provavelmente um número pouco eficaz para que no futuro possamos apreciar a sua companhia. Caberá ao ser humano dar “um empurrãozinho” para que tal seja possível. Abracemos vários projectos como o “Tamar” na Costa do Sauípe, perto Itapuam, Brasil. “Tamar” significa “Tartaruga Marinha”. Vão à Internet e tomem conhecimento do que se faz por lá, mormente de quem o faz. É um exemplo para todos nós.

Similarmente, milhões de folhas cairão este Outono, um pouco mais tarde é certo, mas a inevitabilidade da sua queda é algo que não se coloca. Por isso os ingleses substituem a palavra Outono por “Fall”, a época da queda. Muitas, sob o peso da idade e da fraqueza da sua estrutura, terão uma queda directa e sem sobressaltos. Outras, mas leves e ainda poderão “saltar” de ramo em ramos até pousarem no chão, onde irão encontrar as suas irmãs. Uma porém, teimará em cair e segurar-se-á com todas as duas forças ao ramo que a acolheu nos gloriosos dias de Verão. Será vista como uma folha rebelde que luta pelo impossível e acredita que o fim não é aquele que lhe ditaram, que escolheram por ela. Afinal, após toda a confiança que nela depositou a natureza no sentido de proporcionar à sua árvore um aspecto alegre, vivo, brilhante, durante todo o Verão, porque teimam em fazê-la cair a terminar num simples caderno com desenhos e textos idiotas, ou, no pior dos cenários, integralmente partida num caixote de lixo urbano? Por isso luta., por isso terá de estar atenta ao soprar mais violento da brisa de Outono, ou do vento frio do aproximar do Inverno.

Já extenuada e prestes a desistir da sua vontade inglória, viu-te passar. Uma vez, outra e ainda outra. Sentiu que não estaria sozinha no Universo. Aquela personagem humana tinha uma passada fixa e monótona. Os seus olhos denotavam normalmente tristeza mas a energia que dela emanava era de esperança. Esperança no quê? Num futuro que poderia significar mais felicidade e alegria, mais abertura de espírito, será que também ela estaria revoltada com a vinda do Outono após as sensações abertas do Verão? Não podia adivinhar, mas o que aquela mulher de cabelo dourado, corpo firme esguio e olhos penetrantes lhe transmitia, nunca tinha sentido. Todos temos um dia de tomar decisões, pensou. Seria ela a escolhida para a acolher no seu regaço ou onde muito bem entendesse. Sentia acima de tudo e finalmente, segurança. Por isso esperou. No dia seguinte, já no final da tarde ela passou com um sorriso nos lábios. O momento era este. Olhou uma última vez para toda a árvore mãe, em especial para o ramo que a tinha sustentado durante muito tempo e disse que sim, cedia. Era tempo de partir. Deixou-se cair com a suavidade necessária e planou em direcção aquele ser humano que lhe dizia alguma coisa. Caiu sobre os seus cabelos loiros e depois em direcção ao chão. Tal como tinha previsto, a jovem agarrou-a e sorriu. Disse algo na linguagem dela. Suspeitou que não seria algo de reprovação porquanto os olhos continuavam brilhantes e sorridentes. Abriu a mala e colocou-a no meia de duas páginas de um livro. Até chegar a casa teve oportunidade de dar uma vista de olhos sobre as páginas em que ficara. Um livro enternecedor. Falava de amor e afinal, da vida.

Tinha arranjado pouso para o Inverno e decerto seria a escolhida para percorrer tantos livros quantos a jovem ou o seu companheiro – que conheceu posteriormente – leriam pela vida fora. Valera a pena lutar, manter-se firme contra o vento frio que lhe corroía a estrutura. Hoje o futuro, embora não lhe pertencesse, tinha por si sido construído e afinal nada mais que isso almejara durante a sua existência. Construir aquilo que tinha, mesmo que fosse pouco.

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