sábado, 16 de fevereiro de 2008

A nossa vida é composta por momentos, na verdade ela é uma sequência de ciclos e um dia termina. Mas o bom é que ela começa e recomeça a cada lance, onde nós vemos tudo mudar num segundo. O que acontece é que não aprendemos a valorizar a vida, a nossa vida. Estamos aqui de passagem! Não somos daqui e por isso mesmo devemos aproveitar ao máximo cada momento, cada novo ciclo dessa viagem. Sabemos com certeza que um dia terá um final…mas porquê perder tempo a pensar nisso? O segredo é seguir o destino conforme ele te conduz.

Porquê tanta insatisfação?

Enquanto reclamas por coisas sem importância, muitos gostariam ao menos de ter a tua felicidade, ter um amigo, ter uma oportunidade para recomeçar, ter uma vida. Será que viver não te satisfaz?

Já paraste para pensar que cada manhã ao abrir os olhos, estás a receber uma dádiva de quem mais acreditas? Amanhã poderás não estar mais aqui. Pois assim como o vento, o destino muda muito depressa, acredites nele, ou não.

Faz o tempo valer a pena, vive a cada segundo, faz o que tens vontade, fala o que pensas, demonstra o que sabes, ama, sê tu mesmo.

Não esperes uma segunda oportunidade…talvez o próximo ciclo da tua vida te leve para um rumo, o qual nunca iremos saber, será exponencialmente melhor que o anterior. Faz por isso.

Mágoas e ódios, por piores que sejam as situações, são paradigmas da infelicidade. Shakespeare escreveu que ter mágoas é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa vá morrer. É uma insensatez. NÃO AGIR EM PROLE DE QUEM SE AMA É DERRUBAR UMA PONTE SOBRE A QUAL SE TEM DE PASSAR.

Porquê aguentar a partilha de um espaço com quem não se ama, porque não se tem a coragem de mudar? Medo do futuro? Pensa o que é pior : ficar nesta agonia ou arriscar uma vida nova? Sem as mudanças, por mais radicais que possam parecer, ficamos na mesma, num estado de aborrecimento, em sofrimento, na rotina, no enjoo, no desinteresse. Se tens de mudar, muda já e depressa. Com determinação. A mudança desempoeira e sacode a vida, abre novas perspectivas, gera novos estímulos, traz novidades, move os brios.

Fazer esperar não é prova de amor, mas antes de que a manutenção do estado de coisas nos é suave e cobardemente agradável.

AGE!

José Carlos Lucas - 2008/02/16

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Como pode o Sol entrar e raiar por todo um corpo se não consegue penetrar na alma? Será que o imaterial não se materializa na contemplação de uma simples flor? Será que a energia que nos conduz não consegue trazer até mim o brilho dos teus olhos, o aroma da tua pele, o fino travo do teu beijo? Onde pára tudo isso?

José Carlos Lucas

Onde pára o romantismo?

Não se sabe. A internet, advento de modernidade que tanta gente já juntou, é no entanto também um meio alienador de vontades e motivador de atitudes que há algum tempo não se faziam.

Agora vem ao de cima o individualismo em detrimento do indivíduo. Os valores de quem ama e de quem é amado confumdem-se com o chorrilho de comentários desejando "bom-fim-de-semana", "adoro-te", "um beijo doce", "grande amiga/o", etc, etc.

O amor não vive somente de palavras doces e promessas calculadas. Há que lhe deitar um pouco de aventura, de desafio, de coragem, de risco. Só a existência destes ingredientes faz com que se note que quem se ama é diferente de todos os outros, ou seja, não é mais um na multidão insipida de "amigos", mas sim o primeiro.

Não houve coragem, vontade nem o romantismo suficiente para aceitar um desafio de amor.

Onde pára o romantismo?

José Carlos Lucas

Ontem chorei.

Eu, que muito raramente choro, armei-me em piegas e chorei. Por vezes dá-nos estas coisas e se a vontade de verter algumas lágrimas é superior ao estado normal, não temos de as evitar.

A mãe dos meus filhos saiu de casa em Março deste ano, deixando-me no início com dois adolescentes e uma casa para gerir. Abracei o facto com a normalidade possível, mas posteriormente a minha filha, por solidariedade ou não, foi viver com ela. O meu filho também. Fiquei só. Fez-se um silêncio terrível nesta casa. Os passinhos e as brincadeiras de há 14 anos anos faziam eco todas as noites. Cruel o destino. Mais cuel ainda quando as expectativas de viver com quem ocupa o meu coração se desvaneciam como poeira na consentida burocracia judicial e na estabilidade confortável de uma situação mantida há muito.

Este fim-de-semana os meu filhos estiveram comigo. Fui com eles ao cinema e na hora de dormir alguém entrou no meu quarto e disse que tinha frio. Nunca uma baixa temperatura foi tão abençoada nesta casa. Sorri e fui buscar o velho edredon de penas para colocar na cama da minha filha. Aconcheguei-a e falámos um pouco como antigamente. Depois de sentir que estava confortável e sem o frio que a solidão nos transmite, dei-lhe um beijo de boas noites. O meu coração derreteu-se com a imagem e a volta de um sentimento perdido há tanto. Abracei-a e apaguei a luz. "Até amanhã, fifinha". Um até amanhã que gostaria que se prolongasse por mais, muitos mais dias, lembrando quem sabe os tempos em que sua mãe ainda detinha algum equilíbrio mental e esta casa era tal como o edredon, a magia do acolhimento. Mas esses tempos passaram. Entre um edredon que se foi e outro que teima a recusar tapar o frio da minha solidão, restou este beijo de boas noites, terno e profundo.

Depois chorei. Como há muito não o fazia.

Jose Carlos Lucas

Estranho.

Como não nos apercebemos de certas coisas na vida e elas passam-nos tão perto. As linhas que não discernimos são como as folhas outonais que se movem a uma velocidade estonteante e sem darmos por isso já lá vão sem conseguirmos identificar nenhuma delas.

A fina linha que separa a loucura da racionalidade mostra-se tão invisível quanto a praga que nos atinge, a febre que aparece sem aviso prévio, ou o amor que se vai quando menos estavamos à espera...ou talvez não.

O que quero dizer é que a atenção a essas linhas imperceptiveis tem de ser redobrada sob pena de galgarmos a que nos leva à loucura, normalmente sem retorno.

Esranho...

Estranho como interpretamos o estaticismo das nossas vidas como algo normal e depois tudo se pode desmoronar como um baralho de cartas.

Estranho como relações sentimentais já desgastadas se quebram e ficamos surpreendidos ; estranho como reacções de ciúme podem levar a desconfianças perdidas ; estranho como cumprimos escrupulosamente leis que nos afectam, prejudicam e são entraves à felicidade, estranho como temos relações de pura prostituição com os conjugues sem conseguirmos cortar esse elo nefasto porque nao podemos...ou nao queremos ; estranho como apesar de todas as medidas colocadas ao nosso alcance nos deixamos apanhar nas garras da SIDA, só porque não soubemos resistir a um impulso quimico, só porque não conseguimos que a razão se sobrepusesse à natureza.

Neste dia mundial da luta contra a SIDA vamos pensar. Vamos exercitar a razão e tentar que nas nossas vidas não entre essa estranheza, esse virus inteligente que o poder nos colocou à frente, só para estancar a subida em flecha da população. Gerações foram já eliminadas. Não vamos deixar que essa linha se torne imperceptivel e nos corroa até à morte.

Vamos fazer por nós e ajudar todos os que por descuido ou simples desconhecimento ganharam o direito a uma morte muito pouco digna. Isto se há alguma que valha esse qualificativo.

Vamos lutar e ajudar. Vamos tornar as nossas vidas menos estranhas.

Jose Carlos Lucas

Criaram desde muito cedo em nós a ilusão de que a felicidade existe e teremos um dia de ser felizes. Fomos instruídos na busca incessante de algo que não se vê, não se toca, não se cheira e muito menos se sente. Como tenho por vezes escrito aos meus “não-leitores” , a felicidade como conceito e como realidade emergente não existe e nunca existirá. Tal como “céu”, é uma invenção linguística do ser humano para explicar ou muitas vezes afagar, mágoas profundas e desejos não concretizados.O mesmo sucede com o Natal e as tradições que lhe estão agregadas. São inequívocas as provas de que ninguém chamado Jesus tenha nascido em Belém por esta época. O Natal é a evolução de uma simples celebração pagã que se fazia pelo início do Inverno. Nada mais. A tenebrosa organização mafiosa católico-romana que ainda hoje goza de favores especiais e regula as vontades de inúmeros estados que deveriam ser soberanos, para além de distorcer milhões de mentes menos dotadas de racionalidade, fez com que o Natal se tornasse numa data preferida de consumo e de todo em todo espiritual.Mas as tradições mantêm-se.As famílias reúnem-se, pais juntam-se com filhos, tios com sobrinhos, primos com primos, irmãos desavindos com os desavindos irmãos, maridos adúlteros com adúlteras mulheres, maridos fiéis com fidelíssimas mulheres, maridos fiéis com adúlteras mulheres e maridos adúlteros com fiéis mulheres, enfim, uma orgia perfeita de celebrações que, a 26 de Dezembro já nada significa, ou melhor, significa perfeitamente o mesmo que a 24. Milhões glorificam a gula à volta de suculentos doces e pratos tradicionais, enquanto o triplo desses milhões procuram o máximo – sempre insuficiente - de arroz ou farinha para alimentar os seus filhos. É este o mundo de Deus. É este o mundo que o suposto Jesus nos deixou. A bondade eterna foi corrompida pelo ser que o “Pai” criou à sua imagem. Pena que lá em casa não haver espelhos.Para todos os cristãos, um feliz e reconciliador Natal. Para os outros, divirtam-se. Há futebol na TV dia 25. José Carlos Lucas

Andreia. Estudante do 2º Ano de Geografia da Universidade Clássica de Lisboa.Residente em Loures. 21 Anos.

"Olá. (Sorrisos). Isto vai ser público só na sua página...tua(?), ok, não é? Público...também existem muitas Andreias por aí e só no meu ano somos várias, por isso que se foda. Gosto muito do curso que estou a frequentar e posso até dizer que sou uma aluno média assim para o melhorzinho. Tipo 14, 15. Já dá para fazer qualquer coisa e também espero melhorar até ao final do curso. Porque é que respondi ao convite? Hum....(silêncio)...sabe, todos nós temos e fazemos algumas coisas que não são as mais legais e nunca serão aprovadas por ninguém. Só nós sabemos porque as fizemos.

É assim. Tenho aulas de manhã e até meio de tarde, mas o resto do tempo ou passava no café com amigos, ou ía ao cinema, ou...ía estudar. Comecei a ver as coisas a andar para trás. Um tédio, brrrrr esta vida. Uma amiga minha que é de Literatura aqui na Universidade começou a dar nas vistas. Todos os dias, bem nem todos, mas sabes como é, todas as semanas vinha com roupa nova, de marca sempre, até metia nojo. Mora na Amadora. Nunca lhe tinhamos visto uma capacidade assim para usar aquilo que usava. De repente táaaass. Brutos casacos, calças variadas e telemóveis topo de gama. Dois telemóveis.

Comecei aos poucos a falar com ela e tornamo-nos mais ou menos íntimas. Fui a casa dela e vi que a familia é uma familia normal. Nada de paneleirices e essas coisas. Foi então que ela me disse que havia tempo para tudo. Não percebi à primeira. Então levou-me a um andar ali perto da Av EUA e mostrou-me assim...o seu local de trabalho. Explicou-me que até se podia dizer que se prostituia, mas ela nao considerava isso. Porque só fazia quando queria e necessitava. Eu acho que é prostituiçao, mas...(sorrisos).

Um dia ela marcou-me um encontro. Até fui eu que pedi, porque queria trocar de telemóvel e o meu tava estupidamente velho. Fomos ate lá. Esperei. Entrou depois um gajo todo engravatado e quando olhou para mim disse logo "tu é menor?". Mostrei-lhe o meu BI e conversei com ele um pouco sobre a faculdade. Acho que o tipo devia ser economista ou qualquer coisa de finanças porque só falava nessas coisas. A páginas tantas beijou-me e apalpou-me as mamas. Recuei e ele ficou todo lixado, dizendo que quando se paga é para ser bem servido etc etc. Fiquei com medo. Mas deixei que ele fizesse o resto. O quê? O normal. Fodemos os dois. Foi à ... deixa ver ... 6 meses. Foi assim como que achar um bau de ouro. Logo nesse dia ganhei 150 euros. Até hoje já deu para muitas coisas. Claro que não. Os meus pais não sabem e só duas amigas é que têm conhecimento. Uma delas pertence ao trio que anda naquela casa e já ganhou muita massa porque esse faz algumas coisas que eu nao faço. Eh Eh (riso). Não não digo. Anal por exemplo não faço. E eles sabem e respeitam. Sao quase sempre os mesmos, por isso ela tinha razao quando dizia que nao era prostituiçao.

Nao nao tenho namorado. Mas se tivesse tambem nao havia problema. Não. Nunca diria. É melhor assim. Até ao fim do curso vai dando para muita coisa. Depois deixo. Vou ensinar, mas para fora de Lisboa. Acho que chega ok? Tá, ok."

Uff calor !

São quase 6 da manhã e o Sol já vai bastante acima do horizonte. Parece que o mar acalmou um pouco após este últimos dias em que as ondas teimaram em agredir a suave e branca areia desta praia sem perder de vista. Como é hábito o sono foi-se. Tem sido assim nos últimos anos, acordar cedo. Agora já não me perturba, mas quando estava na Europa era terrível a ansiedade que vinha com o amanhecer e o despertar antes da hora marcada no celular. A falta de sono que tanto me irritava de manhã dissipou-se aqui. Agora é uma bênção acordar cedo, vislumbrar os fortes raios de Sol tentando entrar pelas frestas das tabuinhas, o som do mar espraiando-se pela praia e ela ainda dormindo. Uma visão angelical, um sorriso esboçado no sono, fruto de quem nada tem a temer, de quem nada tem a esconder, de sonhos simples e puros como o mar em que nos banhamos pela manhã.

Após quinze minutos de meditação e agradecimento por mais um dia, levanto-me e faço a higiene matinal. Bebo um sumo de aceroula misturado com iogurte e cereais – um velho hábito do velho continente – e vou num instante à praia falar com os pescadores.

Zé do Norte está visivelmente contente. Pela primeira vez desde à 3 dias conseguiu ir ao mar e a faina resultou em pleno. O grande cabaz que misteriosas forças lhe permitiam transportar estava exposto na areia macia da praia Branca, nome que provinha da cor de leite das suas areias. Falámos um pouco sobre o tempo. Zé era uma pessoa simples como ninguém pode deixar de ser por aquelas paragens, mas tinha uma mágoa que o perturbava e que me confidenciou um dia : não conseguia manejar o computador e lá em casa era o único incapaz de o fazer. Sempre lhe disse que não se preocupasse com isso, pois também ninguém lá em casa sabia manejar o seu pequeno barco com tanta mestria e ser o responsável pela alimentação de tantas bocas. Ele sorria e mostrava a dignidade que lhe ia na alma : “pois é, tem razão, mas assim estou sempre lhe incomodando para saber o tempo para amanhã. Afinal o senhor é o meu companheiro de bordo”. Eu sorria e tentava fazer entender que a vida é feita de pequenas trocas e cedências. A informação meteorológica que lhe dava todas as noites no pequeno bar que frequentávamos era largamente compensada pela certeza de ter peixe fresco pela manhã, praticamente a preço de custo e o custo era a faina que fazia todas as noites em que era possível ir ao mar. Digamos que tínhamos uma pequena sociedade ancestral e primitiva. Peixe fresco por informação e instrução que fornecia aos seus filhos antes de frequentarem a primeira escola. Nenhum tinha entrado nela sem ter a noção das letras e dos números, o que lhes fornecia alguma vantagem perante os companheiros, mas com a consciência de que a escola é para aprender e usar essa aprendizagem para poder ajudar quem não consegue acompanhar. Seguiam-no à regra e o pescador tinha por eles um orgulho incalculável. Éramos vizinhos desde que “poisara” naquela terra abençoada. No início, poucos exibiram simpatia por um extraterrestre que de malas e bagagens teve a desfaçatez de dizer que vinha para ficar e gostaria muito de criar amigos e raízes. Um intruso na comunidade que vivia à volta da grande cidade. Muitos perguntaram porque não tinha ido viver para a urbe, onde com certeza me iria adaptar melhor. Tive de lhes explicar que de cidades estava eu farto. Queria paz e vinha procurá-la ali, no contacto com a natureza e as coisas simples da vida.

Depois de negociar com o Zé, voltei para casa. Ela já se tinha levantado e expressou os seus bons dias com um beijo profundo. O seu corpo estava ainda quente contrastando com a minha pele arrefecida pela brisa matinal que, embora morna, era bastante mais fria que o seu doce tacto. Sorriu e delicadamente passou uma gota de geleia por baixo dos meus calções ao mesmo tempo que me transportava para a nossa cama.

Com algumas poupanças que tinha trazido do preconceituoso continente, consegui implementar na cidade uma pequena academia que ministrava aulas e sessões de reiki, tai-chi, yoga e onde trabalhava uma boa parte do dia. Não me iria tornar rico com tudo aquilo, mas dava para levar uma vida tranquila e no limiar daquilo que sempre sonhara para mim. Ela por vezes passava por lá. Simplesmente para me dar um beijo de boa tarde ou almoçarmos algo simples e conversarmos um pouco. Tinha decidido trabalhar na cidade. Éramos um pouco diferentes mas nada que colocasse em causa o interesse comum pela natureza e o respeito pela dimensão tempo, uma exigência minha de anos atrás. O tempo era importante. A sua gestão adequada trazia harmonia ao corpo e à alma. Ambos os factores tempo e espaço tinham de ter uma simbiose perfeita para que estivéssemos em consonância com a natureza. Era sinal de saúde e bem estar. Quando por acaso o corpo entrava em desequilíbrio, aqueles factores eram preponderantes para um redimensionar das coisas e uma cura rápida e efectiva. Tempo, espaço.

Quando os primeiros raios de Sol teimavam em queimar o horizonte era sinal de que o ciclo do dia e da energia pulsante se estavam a esgotar. Sentávamo-nos no alpendre a usufruir da beleza que o anoitecer dispensava aos sentidos. A mistura radiosa de cores, o perfume das plantas e o som das ondas, eram o estupefaciente perfeito para nos inebriar e transmitir que mais um dia se tinha passado. O ciclo mudava. A noite iniciava-se calma e ritmada.

A maior parte do ano as temperaturas eram quentes o que nos permitia jantar no alpendre. Refeições simples que nos preparavam para noites tranquilas. Conversávamos sobre os acontecimentos do dia e mirávamos as estrelas, comparando os mapas astrológicos de dias anteriores. Surpreendentemente ela tinha mostrado um interesse por astronomia e tornara-se perita em fazer mapas astronómicos com uma minuciosidade impressionante. Explicava-me onde se localizavam as principais constelações e os seus extraordinários movimentos. Deliciava-me com aquilo.

Após o jantar dávamos um longo passeio pela praia que embora escura já não o era aos nossos olhos. Conhecíamos todos os recantos, todas as pedras e conchas que o mar nos trazia. No início, as ondas eram matreiras e faziam-nos partidas como que a dizer “que fazem aqui no nosso território?”. Mas depois de quilómetros caminhados, éramos praticamente companheiros de viagem das mesmas e todas sem excepção nos vinham dar as boas noites. Dizem que as ondas são únicas. Não acreditem. Aquelas nós conhecíamos e respeitando a sua sazonalidade sorriam no seu bater na praia.

O bar da Tété era como um templo para onde quase todos convergiam à noite. Na conversa com amigos, no bebericar de uma cerveja ou de um sumo natural, renovávamos a fé na humanidade porque em tempo tínhamos duvidado da sua racionalidade. Ali, encontrámos a resposta para a descrença no bicho Homem. Simplicidade. Das coisas simples, de gente simples e sem preconceitos vinha a verdadeira essência do Ser Humano. Era ali que se definia a diferença entre nós e o Rock (o cão lá de casa).

Após o convívio e a salutar troca de ideias ou o acompanhar vibrante de um jogo de futebol, regressávamos a casa. Meditávamos cerca de vinte minutos numa harmonização energética que nos permitisse sentir que fazíamos parte de algo mais lato que este pequeno planeta. Depois sorriamos e beijávamo-nos. Os seus olhos meigos indicavam uns dias cansaço, noutros pedidos clementes de saciedade. Fazíamos amor e nunca sabíamos quando tínhamos terminado…ou se algum dia terminaríamos. Estávamos convencidos que isso nunca aconteceria e mesmo quando a nossa energia lhe espalhasse pelo Universo, estaríamos juntos.

José Carlos Lucas

P.S. – Ontem a mãe de um amigo deixou-nos. Espero que a sua energia se congregue e ganhe força para ajudar os seus entes queridos que choram a sua partida. Todavia meu amigo João, não foi uma partida mas sim uma transformação. Um transporte de energia para outro local do Universo. Não obstante a falta física que nos corrói, onde estiver, estará sempre presente e senti-lo-ás no teu coração.

Quando sei que vou estar contigo
Parece que o dia se ilumina
Sinto-me melhor
Mais confiante com uma vontade louca de te falar
Adoro quando me olhas com um sorriso no olhar
Quando ficas contente por mim
Com cada uma das minhas pequenas
Ou grandes vitórias, como se elas fossem também tuas
A verdade, é que acho que sem ti
Não tinha tido nenhuma vitória nos últimos tempos
Ou talvez, as tivesse mas nem as notava...
Tal como toda a minha vida
Alegras-te com as minhas pequenas ou grandes vitórias
Como nunca ninguém fez
E, por isso mesmo, eu nunca lhes dei importância
Foi isso que me fizeste
Ensinaste-me a dar importância
Às pequenas coisas que faço
Ensinaste-me a reparar em mim
Ensinaste-me
a ter auto estima
Apenas porque gostas de mim
E ficas feliz por mim
Com aquelas coisas que eu aprendi
Com a vida, a fingir que não têm importância
Imaginas o que senti
A primeira vez que deste importância a uma delas
Questionei: «porquê?» nunca ninguém tinha dado
Nunca ninguém tinha demonstrado
E eu vivi sempre olhando
Apenas para a sombra daquilo que fazia
Em vez de olhar, com orgulho, para aquilo que fazia
Por um lado foi bom
Por outro fez-me sentir amargurado
Pelos aplausos que nunca me deram
Pelo inseguro que me tornaram... e hoje, agora
Não será tarde demais?
Por isso preciso de ti...
De te falar
De sentir o teu apoio
Do teu amar…
De envelhecer a teu lado
Fica comigo meu amor…

Autor : António (retirado de um comentário de hi5)

Perante a profundidade destas palavras tão singelas e da aceitação das mesmas, qualquer comentário, ensaio, romance ou poema, será votado à obscura existência do nada.

José Carlos

A vida é um contínuo de positividades e negatividades ou simplesmente uma soma de pequenos “frames” que um dia formarão o filme?

Não tenho resposta para esta questão. Sei sim que existem “frames” reais e outros que geram apenas a ténue ilusão de que se está a viver uma falsa realidade. Uma experimentação dos sentidos, uma vivência provisória que de modo algum nos projecta para a dimensão correcta.

Um estupefaciente que nos torna dependentes da ilusão de um fugaz momento de felicidade, como se a vida começasse ali e tivesse continuidade. Mas não.

Como qualquer output de um alucinatório, a realidade sobrepor-se-á inevitavelmente.

Experimentemos levar alguém que nada tem – amor, bens, capacidade financeira – a jantar uma refeição com que sempre sonhou, a ver um filme no cinema onde tem por hábito ganhar umas moedas de caridade, a dormir na cama limpa e fofa de um apartamento ou hotel e prolonguem-lhe essa vivência por dez dias. Após o quarto dia, a sua paupérrima realidade deixa de fazer sentido e no seu lugar começa a formar-se um nicho mental e a noção de que a sua vida não fazia sentido. Esta é aquela com que sempre sonhou e, porque não, aquela a que sempre teve direito. Se quisermos, adicionemos-lhe a oferta de um trabalho medianamente remunerado, ao qual ele se dedica sem restrições ao fim do terceiro dia. Para trás ficou uma mesquinhez e turbulência que já não entende muito bem como era, como foi possível chegar àquele estado de coisas, àquela vida sem sentido.

Ao décimo dia retiremos-lhe tudo e ofereçamos-lhe nada mais que o que tinha dez dias antes, com a promessa de que um dia a experiência que viveu, será a sua verdadeira vida.

Suicídio? Revolta? Vontade de dar um tiro nos autores da experiência? Frustração?

Sim. De tudo um pouco. Mas frustração, tristeza e descrença serão as sensações mais adequadas como consequência de uma experiência tão atroz.

Um pequeno frame numa vida sem sentido.

José Carlos Lucas